quinta-feira, 12 de abril de 2007

nada

Aquele foi o dia em que encontrei o nada.
Era quase primavera e por acaso estava em casa, doente.
E também por acaso ela resolveu passar por aqui. Soubera que eu não estava lá muito bem.
Ela entrou trazendo um silêncio pesado e o vento fresco da rua. Calado abri a porta, beijei sua bochecha sem muita emoção. Virei as costas e olhei-a parada na porta. Entra - eu disse, e fiz sinal com a mão. Deitei na cama e esperei que ela chegasse. Fiz minha melhor cara de "quanto tempo, o que tem feito da vida". Não deu muito certo. Ela me olhava ainda em silêncio. Mexeu nos cachos das pontas dos cabelos olhou as fotos na parede - certamente notou a ausência das fotos que conheceu em outros tempos. Disse algumas coisas do tipo "estou muito bem agora, bla bla bla". Acho que ela tentou fazer a sua melhor cara "sou forte, moderna, independente e muuuuuito feliz". Acho que a cara dela foi tão convincente quanto a minha. Puro teatro. Resolvi passar por aqui, fazer uma visita - ela falou. Sei - eu pensei, mas balancei a cabeça afirmativamente num gesto de boa educação e agradecimento. Na hora pensei que aquilo era um teste. E quando percebi a situação, notei que estava tudo perdido. Mais dois minutos de conversa fiada e ela disse que tinha que ir. Balancei a cabeça novamente, peguei minha chave e levei-a até a porta do prédio. No caminho o silêncio confirmava todas as minhas teorias. No portão, um abraço frio. Ela virou as costas, pôs as mãos no bolso do casaco e caminhou sem olhar pra trás uma única vez. Eu? Eu fiquei olhando até que ela sumisse pela calçada. Foi a primeira vez que senti o nada.

Um comentário:

Unknown disse...

"Tristeza não tem fim,
Felicidade sim".