quinta-feira, 26 de abril de 2007

Ela gosta do “Chão”

Nunca havia prestado muita atenção nela. Na correria vemos muita gente e acabamos não prestando muita atenção em ninguém de fato. Sempre tem aqueles que a gente não vai com a cara, ou aqueles simpáticos que sempre agradecem quando entregamos a sacolinha de compras. As vovós são sempre as melhores, “Obrigado meu filho, fique com Deus” – elas dizem. E as mais generosas dão gorjeta, que aceito por educação e porque preciso mesmo. Alias as gorjetas estão muito raras hoje em dia.

Um dia veio ela, movendo-se com dificuldade com suas muletas. Era uma senhora branca, olhos claros, bochechuda e com nariz fino. Daquele tipo que fica rosa e depois vermelho quando alguém fala um palavrão.Tinha um sotaque carregado que eu achei graça logo de cara, quando ela perguntou pra operadora de caixa “Quanto Teu?”. Segurei o riso. Ela escorou-se no check-out equilibrou as muletas em um braço e com o outro fuçava na bolsa marrom procurando dinheiro. Empacotei tudo. Era um volume grande de coisas. Instintivamente perguntei “A senhora quer que leve as compras?”. Geralmente esse pessoal fica ofendido quando oferecemos ajuda, sei lá, acho que sentem pena deles mesmos e acham que estamos taxando-os de inválidos. Ela sorriu e ficou rosa. Tinha dentes grandes e bonitos. “Sim, poTe ser”. Pus as compras no carrinho e esperei que ela passasse a frente, aos pulos com suas muletas.

Falamos pouco. Ela me disse que se chamava Helga. Eu fiz sinal com a cabeça. Somos orientados á falar muito pouco com os clientes. Quando estávamos chegando no prédio, ela perguntou meu nome. Ergui a cabeça e olhei paras suas bochecas vermelhas e olhos azuis, “João, me chamo João”. Ela fez um “hum” e chamou o elevador de serviço. Entrei com o carrinho e esperava que ela fosse pelo elevador social, mas Helga subiu comigo. Tu tem quantos anos? Sorri tímido e disse, “tenho dezesseis”. Ela assentiu com a cabeça novamente. Pulando, abriu a porta do elevador para que eu passasse e foi em direção ao número trezentos e dois. Era um apartamento bonito, bem organizado, poucos móveis e um cheiro ótimo de limpeza. Ajudei a desfazer as sacolas, dirigi-me até a porta e batendo as mãos nas calças meio sem jeito, disse “Bom, até a próxima, então”. Ela me olhou e disse “Espera aí menino” – tirou cinco reais do bolso e me deu. Sorri, agradeci e fui pelo elevador de serviço com o meu carrinho de entrega.

Nos outros dias nem lembrei mais da Helga. Era rotina, 15 entregas por dia, em média. O que não era rotina era uma gorjeta tão gorda assim. Pouco mais de uma semana depois ela apareceu comprando poucas coisas. Cumprimentei e empacotei suas compras. Eram quase 18h e eu estava de saída, era uma sexta-feira e não tinha absolutamente nada pra fazer. Ofereci-me para levar suas compras e ela aceitou. Como eram poucas coisas, nem levei o carrinho. No caminho, Helga disse, sem uma conversa anterior para introduzir o assunto, “eu tenho trinta e cinco e trapalho num panco”. Segui o protocolo e balancei a cabeça afirmativamente. Chegamos e ajudei a desfazer as sacolas. Ela já me esperava na porta quando ia para casa. Ela não me deu gorjeta dessa vez, mas me olhou rosa e sorridente “quer um refri?”.

Aceitei. Ela serviu dois copos e me ofereceu um. Deslocou-se até a sala e me chamou. Largou as muletas no sofá e sentou-se. Receoso, fui ao encontre dela bem lentamente, com o copo de refrigerante na mão. Sem rodeiros ela disparou “Perdi a perna num acidente de carro quando tinha tua idade”. Claro que eu havia notado, mas nem fiquei pensando naquilo. A perna esquerda estava representada só até o joelho. Dali pra baixo era vazio. Resmunguei alguma coisa. Foi o bastante para ela desatar a falar sobre a vida. Disse muitas coisas... seus pais eram de origem alemã e fugiram da guerra, morreram quando era mocinha ainda e ela ficara sozinha com aquele apartamento. Falou que sempre deu duro pra poder se sustentar, já que não tinha ninguém, e ainda por cima não tinha uma das pernas para facilitar.

Ela falava as coisas com seu sotaque durão e engraçado, não reclamava, era leve e divertida. Não propriamente bonita, mas interessante a tal da Helga. De repente, o assunto é cortado e eu estava no meio de uma risada das boas, mostrando meus dentes grandes que tanto me envergonham. Ela ficou séria e eu congelei. Ela pegou suas muletas e moveu-se até o sofá na sua frente onde eu estava. Como estava, permaneci. Cara de susto e olhos arregalados. Ela sentou, com a nádega e perna direita em diagonal a mim, a perna faltante dava a estranha impressão de estar ali, balançando. Eu conseguia enxergar uma canela e um pé imaginário. Passou a mão pela minha camisa e desceu ligeira para minhas calças de uniforme. Maldito oxford, que não me deixava disfarçar a ereção galopante que se apresentava. Me beijou e me conduziu numa estranha dança que até então só conhecia pela tevê, pelas revistas e pelos amigos da vila que me zoavam me chamando de “cabação”.

Fazer o que? Eu era com certeza a figura mais estranha que conhecia. Magro, alto, negro-noite, cabeça fina, dentes grandes, olhos enormes, pés desajeitados. As cocotas da vila não me tinham nem como última opção. E pagar para ter sexo, na minha cabeça era tirar atestado de incompetência. Ia deixar acontecer. Algum dia aconteceria. Aconteceu com uma alemã meio esquisita de trinta e poucos anos, perneta. Mas isso não importava muito. Enquanto ela se mexia em cima de mim, passava as mãos sobre suas coxas. Minha mão esquerda seguia o movimento até seu pé. A outra ia até o joelho, afinava o movimento para as dobras da amputação e seguia livremente até a canela e pé imaginário, que só eu via. Ela pareceu entender a situação e riu, vermelha como ela só... Ela disse “Tu não existe Chão”.

Fui muitas outras vezes na casa da Helga, algumas até fora o horário de serviço. Daí usava o elevador social, ainda que o porteiro, que já me conhecia, sempre me olhasse como um cão que late pra um mendigo. Mas como eu levava flores, ele não falava nada. Ela era legal e me divertida, me dava refrigerante e sexo. A única coisa que me chateava na Helga não era a ausência da perna, mas sim o fato de ela nunca conseguir falar meu nome direito. Depois de algum tempo, me acostumei a ser o “chão”.

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo!
Figuraça essa Dna Helga


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